*Reportagem especial para Revista laboratorial 12 Horas. Também foi para o blog do meu amigo Narley Resende-> Escola Tomaz Edison Especial
Um ambiente escolar comum, mas com peculiaridades tamanhas. Assim se define a especialidade da Escola Mercedes Stresser que aguarda mudanças e se prepara para a comemoração de meio século de vida.
Chegam bagunceiros e entram pelo portão que ao abrir, por pouco não encosta nas raízes do grande ipê amarelo no meio do pátio, em frente a recepção. Uns entram quietos, outros nem tanto. “Piazada teimosa!”, fala Oswaldo Reinaldi Sobrinho, 51, o porteiro que há mais de trinta anos deixa a piazada entrar por volta das sete e quinze da manhã. Vez ou outra ele esmaga algum aluno no portão de controle remoto. Aí é uma risadeira só. Tiração de sarro com o piá que ficou preso. E Oswaldo se fecha, calado, brabo. Ele é especial, assim como todo o ambiente. Especial, também pode ser entendido como excepcional, por definição de dicionário: relativo à exceção; muito bom; excelente; portador de incapacidade física ou mental.
“Esta entidade tem certificado de fins filantrópicos concedido pelo Conselho Nacional de Assistência Social para prestar atendimento a pessoas carentes.” É a escrita grifada na placa de alumínio, fincada na parede que há tempo vê crescer o grande ipê amarelo. Pelo ar sereno no pátio cheio de passarinhos, pelos móveis antigos de madeira, pelo chão de tacos e pela arquitetura, não se poderia pensar que a Escola Mercedes Stresser, fica no centro de Curitiba, capital do Paraná. Lá pelas tantas da rua Augusto Stellfeld, precisamente nos números 1.208, 1.212, 1.216, 1.190 e 1.174, se encontra a atual sede.
Em pouco tempo, cerca de meia hora após a entrada da piazada, o pátio, recheado de folhas caídas do ipê já está limpo. Começa o dia num dos centros mais antigos do país, inteiramente dedicado a pessoas especiais. Pelo estado paranaense, existem escolas especiais públicas e particulares. Dentre as privadas não pertencentes ao governo, poucas admitem somente pessoas carentes. Raras são as municipais empenhadas em oferecer algo a mais, como a oportunidade de trabalho. As privadas, geralmente possuem um foco centralizado no ensino infantil. Não é o caso da Mercedes Stresser, referência nacional em ensino especial. Esta, recebe adolescentes e adultos carentes, acima dos quatorze anos.
Não é a toa que a escola possui títulos de utilidade pública municipal, estadual e federal. Mais de 80% dos alunos são extremamente carentes e muitas vezes levam comidas do refeitório para suas casas. Em abril do ano que vem, a Mercedes completa cinqüenta anos de existência. Dª Dalila de Castro Lacerda se orgulharia. Uma placa chumbada na parede da recepção exibe sua foto. Uma homenagem feita em 1968, pela Associação de Assistência ao Psicopata do Paraná, à idealizadora do projeto.
Impossível não notar o empenho dos mantenedores do agradável cotidiano da Mercedes. Os funcionários chegam com risonhos bons-dias ao marcar a chegada numa destas máquinas Henry Plus. A cada dia se renova a dedicação. Tons escuros e sofás muito velhos decoram o interior da sala dos professores, logo atrás da recepção. Um papel sulfite já amarelado, mas protegido por um plástico diz: “Esforce-se não por tornar-se uma pessoa de sucesso, mas uma pessoa de valor. (Albert Einstein)”.
A escola tem um marco nada convencional. A maioria dos docentes esta lá há mais de duas décadas. “Tem alunos meus que já casaram e agora eu ensino os filhos deles.”, conta o alegre Professor Valfrido, lecionador de especiais na Mercedes, há 35 anos. Dentre o grupo, tem figuras como a coordenadora de trabalho supervisionado Eloá, que ali está há 37 anos. Há de se apontar os professores que sequer lembram quando entraram. A psicóloga Ligia, modificadora dos processos de avaliação psicológica da instituição, trabalha no ambiente desde 1971.
Para quem não convive com adultos e adolescentes especiais, é difícil imaginar como é o modo de vida deles. O fato, é que vivem de maneira absolutamente normal. Assim como as pessoas descritas perfeitas em meio à sociedade, muitos trabalham, obtêm renda, casam, tem filhos. Isto é, reproduzem e morrem da mesma forma que aqueles em dia com a saúde mental. Eles sabem de suas especialidades e não têm medo, nem vergonha de serem felizes como são. E de tocar a vida pra frente apesar dos pesares. Visível é a felicidade e disposição do casal Maria, 30, e Nelson, 43. O casamento é para o ano que vem e eles mostram contentes o par de alianças que puderam comprar. O dinheiro, assim como o amor, surgiu por serem colegas e fazerem parte da unidade de trabalho da escola. É este o marco da Mercedes Stresser, que com mais de 420 alunos promove a ascensão dos especiais na sociedade. Há muito crédito no potencial intelectual do deficiente. “Acreditar, é constante, é sempre.”, enfatiza Ligia. Hoje, há mais de 250 especiais egressos que estão no mercado e com carteira de trabalho assinada.
Toda segunda-feira os alunos das oficinas pedagógicas se reúnem e cantam o hino nacional. A voz de José Renato se destaca. Um timbre forte, bem pontuado. Canto bonito. Após o hino, o pessoal pede para ele demonstrar seu dom. Com os olhos fechados e o dedo indicador para cima, mostrando concentração ele começa: “Você fala por aí que não me ama, você jura que já não sente mais nada…”. Adora a música “Agenda Rabiscada”, da dupla Cleiton e Camargo. O canto causa emoção nos professores e palmas dos colegas. Figura da escola, Zé Renato é muito esperto, tem 23 anos e diz gostar de tirar pó de estante cantando, sempre.
A inclusão no mercado de trabalho é um grande desafio para pessoas deficientes, ainda mais se a deficiência se caracterizar mental. Uma das vitórias nesta caminhada é a Lei Federal nº 8213/91, artigo 93, a qual determina destino de cotas de até 5% do total de vagas de uma empresa de grande porte à portadores de necessidades especiais. Assim, ficou bem mais fácil para a Mercedes encaminhar sua piazada para o trabalho.
Funciona da seguinte maneira: adolescentes, com mais de quatorze anos têm aulas de ensino fundamental dividido em quatro fases. Para tanto, são encaminhados conforme seu nível de capacitação, identificado pelas psicólogas no processo de matrícula. Alguns tem aulas nas oficinas pedagógicas. Tem sala de encadernação, padaria, tecelagem, pintura e informática –joguinhos de atenção. Por trás de cada atividade de uma oficina, há uma aula que oferece noções de ciência e aprendizado. Na padaria, por exemplo, eles aprendem as medidas de quilogramas e temperaturas. “A maior dificuldade do deficiente intelectual é a fixação abstrata, por isso, sempre temos que inovar os métodos.”, explica Ligia, psicóloga.
Os alunos que se destacam, vão para uma sala específica de orientação para o mercado. Aí começam as noções de disciplina e da relação empregador-empregado. Ao chegar e sair da sala, eles tem que bater o ponto na Henry Plus. Já para os adultos acima de vinte e um anos, que não tiveram a oportunidade de preparação, a Mercedes mantêm um galpão e mais cinco salas. Nelas, são confeccionadas alças de balde, caixas de papelão, interruptores, e fios-terra. A parceria se dá com algumas empresas como a Volvo do Brasil, a Rede Angeloni, o Mister Sheik Arabian e os Supermercados Dip. Ali, o pessoal ganha somente se produzir, como numa fábrica de produção otimizada.
Débora é uma das adolescentes que já trabalha. Está empregada numa fábrica de bolsas e admite que adora dançar, após ser pega no flagra. Enquanto espera o início da aula, escuta um hip-hop no celular. Ela conta que toda sexta-feira a tarde, o Professor Valfrido coloca as caixas do computador na janela pra todos dançarem e darem risadas uns dos outros. “Precisa ver na festa de aniversário, a gente faz o fervo.”, ela comenta. A cada semestre, no pequeno e humilde ginásio da Mercedes, rola uma festinha para os aniversariantes da vez. Débora também conta que quando as férias chegam, todo mundo fica triste por não visitar a Mercedes.
Vem muita mudança por aí. Adaptação então, nem se fala. A escola acaba de ganhar um nome novo, pois até pouco tempo se chamava Centro Especializado de Habilitação Profissional Mercedes Stresser. A placa de frente para a rua, ainda tem o nome antigo. Agora, a nomeação intensifica o modelo de atuação: “Escola Mercedes Stresser: Ensino Fundamental , Anos iniciais, Educação Profissional, Modalidade Especial”. De acordo com a nova regulamentação e nomenclatura, as unidades de trabalho supervisionado, pedagógica e sócio-ocupacional, agora serão reconhecidas e resumidas em “Educação Profissional”.
Ventos frescos sopram para o pessoal da Mercedes. O ipê amarelo vai ficar sozinho, sem presenciar o hino nacional nas manhãs de segunda. Não é só o nome que mudou. O espaço físico vai ser outro. A transformação será drástica e a ansiosidade já toma conta de Quintiliano Machado, 78, há quase três décadas, presidente da Associação de Assistência ao Excepcional do Paraná – organização mantenedora da escola. Seu Machado, como é chamado é adorado pelos alunos. Aliás, seu filho Beto, também é especial.
A sede do ipê, no centro, acaba de ser vendida pois numa tentativa de fuga da falência, Seu Machado buscou apoio e a venda foi concretizada. Agora, é outra etapa. “Enquanto não construir a outra, não saímos daqui.”, relata Seu Machado ao contar que desde 2005, não havia verba suficiente para uma nova sede e a Mercedes andava em maus lençóis por causa das dívidas e falta de doações. Por isso, decidiu vender o terreno e o imóvel. Agora as coisas vão sair do papel e o projeto tão sonhado vai acontecer. O novo ponto será localizado no bairro Jardim Botânico e tem o propósito da modernidade e. Tudo está encabeçado pela Fundação Educacional do Paraná (Fundepar), que ressalta o Há de se pensar no fato de que muitos deficientes mentais são também físicos. Portanto a atenção é à acessibilidade. A Mercedes nunca foi tão chique. Até hoje, desde a fundação, ocorrida em 1961, e da passagem por vários locais diferentes, a escola nunca teve este privilégio. A construção vai demorar cerca de dezoito meses. Não vai ser tão fácil trocar de ambiente, pois há 38 anos, professores, alunos, colaboradores e trabalhadores especiais batem o ponto no local.
Muitos foram os obstáculos enfrentados e por isso, a cinquentona Mercedes Stresser se orgulha em ser coroa. Certa vez, traficantes da região usaram alguns alunos como entregadores de drogas no ponto de ônibus mais próximo. E fizeram isso, por saber que pessoas especiais não podem ser punidas. Assim como os obstáculos, tiveram muitas conquistas. Na sala dos professores, se nota um grande balcão com 97 troféis de vários jogos disputados pela escola em artes, atletismo, futsal, natação, ginástica, netre outros. O mais antigo data de 1974, quando a Mercedes foi vice-campeã da 1ª Olímpiada dos Excepcionais. No seu currículo, a escola tem várias viagens e visitas importantes. A última foi da Daiane dos Santos. Uma recordação importante e reconhecida, com foto na parede. Por falar em retratos, eles estão grudados com fita durex em praticamente todas as salas. Há uma eterna alegria e adoração por registros.
Colaboradores como Felipe Braga Côrtes, dizem não medir esforços para que a vida da escola seja eterna. Felipe ajuda ao proporcionar viagens, como a última para Lapa, cidade histórica do Paraná. Uma empresa forneceu ônibus, outra os lanches, e Felipe intermediou e organizou a bagunça. “Uma festa! Foram quase quatrocentos alunos.”, conta Felipe com alegria.
Para quem quiser ajudar, pode fazer até um trato com a Copel. Na escola, tem formulários que é só preencher e entregar lá mesmo. A doação é somada na conta de luz do doador. Muitos ajudam com cinco, dez reais. A Mercedes agradece. Mas não aceita mais do que cinquenta parcelas. Tudo para zelar a credibilidade que carrega.
Mercedes está ansiosa. Vai fazer cinqüenta anos e no máximo com cinqüenta e dois vai estar de casa nova. O ipê vai ficar ali, nem se sabe se continuará vivo. Mas ela deixa seu recado muito bem dado para pais, irmãos, e pessoas envolvidas com especiais. Sua história demonstra que discriminação é não atender e negar o direito de aprendizagem especializada. A inclusão social é possível, mas com muito acompanhamento e atendimento individualizado. Na biografia da Mercedes, tem uma grande lição de casa para o Brasil.






